• Quando o Zero é a nota máxima

    O HIV já foi motivo de muita histeria coletiva desde o início de sua epidemia na década de 80. Depois da lenda da seringa deixada de propósito com a agulha pra cima na poltrona do cinema, foram vários os exemplos, até os recentes episódios do “Clube do Carimbo” e do “Maníaco da Seringa” atacando na Avenida Paulista. Em todos esses casos, alguém causava pânico à população por supostamente tentar infectá-la. Isso mostra que uma das questões que causam mais preocupação dentro do assunto HIV é o seu caráter transmissível.

    Cerca de uma década depois da identificação deste vírus, surgiu o tratamento antirretroviral, e com isso as pessoas que viviam com HIV deixaram de ter a morte como desfecho mais provável e passaram a viver cada vez com mais qualidade de vida e saúde. O sucesso do tratamento, no entanto, não foi suficiente para diminuir o medo de transmitir ou pegar o vírus, e assim a sorofobia (sentimento de medo ou aversão a um indivíduo por conta de sua sorologia positiva para HIV) pôde criar suas raízes mais profundas no imaginário popular.

    Durante muitos anos, uma pergunta incomodou o mundo por não ter resposta: Qual é o risco residual de transmissão do HIV por via sexual sem preservativo a partir de uma pessoa em tratamento? Apesar de isso ser algo que todos queriam saber, não podíamos responder de maneira precisa, pois não havia nenhum grande trabalho avaliando esse dado. O sexo sem preservativo entrou então na categoria proibido.

    Naquela época, o máximo que podia dizer era “O risco é menor”, informação que conseguia tirar interpretando a mudança do padrão de crescimento da epidemia a partir de 1996, quando o número de novos casos de infecção por HIV diagnosticados a cada ano no Brasil deixou de aumentar de maneira explosiva e enfim se encaminhou para uma estabilização. Essa mudança não aconteceu porque em 1996 as pessoas aprenderam a usar a camisinha, mas sim porque nós médicos aprendemos a tratar os pacientes com a terapia antirretroviral, obtendo o controle eficaz e duradouro da multiplicação do vírus; e também porque esse tratamento passou a ser oferecido gratuitamente como estratégia de saúde pública no país.

    Foi só em 2011, com a primeira publicação do HPTN052, trabalho que se propôs a acompanhar por 10 anos quase 1500 casais sorodiferentes para avaliar se o tratamento do indivíduo que vivia com HIV interferia no risco de transmissão do seu vírus para uma parceria soronegativa, que começamos a responder àquela pergunta que não tinha resposta. E essa resposta era muito melhor do que imaginávamos.

    Hoje entendemos como Tratamento como Prevenção (TcP) o conceito de que a terapia antirretroviral pode reduzir esse risco a níveis insignificantes. A evidência científica atual é robusta e não deixa qualquer dúvida. Nos 3 trabalhos realizados até agora (HPTN052, Partner e Opposites Attract, sendo esse último apresentado na semana passada na Conferência da International Aids Society em Paris), mesmo após um longo tempo de acompanhamento de milhares de casais sorodiferentes e dezenas de milhares de relações sexuais sem preservativo, não houve absolutamente nenhum caso de transmissão do HIV a partir de alguém que estava com carga viral indetectável. Independentemente das práticas sexuais realizadas, da presença de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), da ocorrência de Blips, ou do uso de PEP ou PrEP.

    Era essa a resposta que todos os meus pacientes queriam ouvir. É essa a informação que agora o mundo precisa ouvir.

    Mas atenção, existem as entrelinhas dessa história. Indivíduos que iniciaram recentemente seu tratamento ou que não têm boa adesão aos seus antirretrovirais precisam de especial atenção, afinal podem ter carga viral ainda detectável e por isso são ainda potenciais transmissores do HIV. Os estudos mostraram também que quando uma pessoa mantinha relações desprotegidas com outras parcerias além daquela que estava indetectável, continuava havendo risco de infecção por HIV vinda dos terceiros. E além disso, as outras ISTs não são nunca prevenidas apenas zerando a carga viral de alguém.

    Tudo isso para nos lembrar que não podemos interromper o aconselhamento de prevenção combinada só baseado no TcP, e que em alguns casos a associação da PrEP ou da PEP pode ser bastante útil para manter um indivíduo livre do HIV.

    O que é preciso então para que uma nova descoberta seja aceita como verdade? Qualidade da evidência científica? Número grande de participantes em acompanhamento? Longo tempo de seguimento? Os três trabalhos citados cumpriram todos esses requisitos, mas ainda assim vemos hoje médicos e aconselhadores se recusando a falar sobre TcP com seus pacientes, mesmo quando questionados. Quem omite essas informações alimenta o stress e o estigma associado ao HIV, e comprova que de fato, o conceito de sexo seguro precisa ser atualizado e incluir mais opções além do sexo com preservativo.

    Divulgar para todas as pessoas do planeta que a carga viral zerada é o certificado de que aquele indivíduo é inofensivo como não-transmissor é uma urgência e um ato fundamental de humanidade para as pessoas que vivem com HIV.

    Essa é a melhor oportunidade que já tivemos até hoje para erradicar a sorofobia, é dar força e confiança para quem se encontra empenhado na adesão à sua terapia antirretroviral, é motivar quem ainda não a iniciou, é permitir que relacionamentos aconteçam com naturalidade e sem culpa, e é garantir tranquilidade para aqueles que têm desejo reprodutivo.

    Junte-se à campanha lançada em 2016: U = U (Undetectable = Untrasmittable, do inglês Indetectável = Não-transmissor). E ajude a disseminar essa ideia. 

    Vamos comemorar o Zero.

    * Ricardo Vasconcelos é infectologista e coordenador do estudo PrEP Brasil.

    16/08/2017, 03:49 h

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