• Legado de Cazuza é celebrado em encontro histórico no palco da Arena Banco Original que reuniu artistas como Ney Matogrosso, Alcione e Baby do Brasil

    Na plateia, Alinne Moraes foi uma das artistas que marcou presença no show "Viva Cazuza Sempre". Depois de uma grande mobilização nas redes sociais, a atriz contou porque fez questão de participar da festa. "Nessa noite, eu tenho vários amigos no palco celebrando um grande artista em um evento que vai ajudar gente que precisa muito do nosso apoio"

    “Que Cazuza viva para sempre”. Foi com essa mensagem, dita por Lucinha Araújo, mãe do cantor e poeta, que a Arena Banco Original foi contagiada por uma mistura de sentimentos. No palco do festival promovido pelo banco Original, Rogério Flausino e o irmão Wilson Sideral apresentaram o projeto que celebra a memória de Cazuza em um show que foi muito além da dupla. Para a noite de ontem, o “Viva Cazuza Sempre”, nome do projeto idealizado pelos irmãos, reuniu inúmeros artistas no palco do Armazém 3, como Ney MatogrossoAlcioneBebel GilbertoDiogo NogueiraTeresa Cristina e Baby do Brasil. Entre as músicas tocadas pelos super cantores da noite, estavam clássicos da obra de Cazuza, como “Brasil”, “Exagerado”, “Ideologia” e “Pro Dia Nascer Feliz”, e uma letra inédita, que foi musicada por Wilson Sideral a partir de um poema escondido do cantor.

    Entre tantos assuntos que a noite de quarta-feira trouxe à Arena Banco Original, vamos começar pela pessoa mais importante e que estava mais emocionada na plateia do festival: Lucinha Araújo. Mãe coruja e fã número 1 de Cazuza, ela é a maior responsável por manter a obra do filho viva até hoje. Mesmo depois de 26 anos da morte do cantor e poeta, Lucinha contou que não cansa de gritar o nome do filho para todos. Extremamente emocionada, ela disse que a homenagem da noite de ontem foi mais que justa a todo o legado deixado por Cazuza. “Eu acho que ele merece isso e muito mais. O Cazuza foi um grande poeta e o Brasil se orgulha muito dele. Eu vejo que meu filho é uma figura como Noel Rosa, que morreu antes de eu nascer, mas eu cresci ouvindo e se mantém vivo até hoje. Então, é isso que eu quero e acredito que vá acontecer: Cazuza estará para sempre entre a gente através de sua arte”, disse Lucinha que acompanhou todo o show da frente do palco e, no fim, se juntou aos convidados ilustres para cantar alguns sucessos do filho.

    No palco, essas múltiplas vozes relembraram canções que atravessam as gerações e os gêneros musicais, como destacou Teresa Cristina. Cada um com sua história e identificação com a canção escolhida, o HT conversou com o elenco musical e descobriu relatos interessantes sobre a escolha do repertório. Uma dessas histórias é a que envolve Diogo Nogueira e a música “Codinome Beija-Flor”. Como nos contou, essa é uma canção que já faz parte de seu trabalho e que foi um pedido da própria Lucinha Araújo. “Uma vez, eu gravei essa música para uma rádio, a Lucinha ouviu e, tempos depois, disse que eu tinha que colocá-la no meu repertório. E assim, pedido de mãe é quase uma ordem, ? Quando eu comecei a montar o meu último trabalho, ‘Alma Brasileira’, eu percebi que estava reunindo canções que fizeram parte da minha vida, que minhas irmãs ouviam escondido e minha mãe cantarolava. Então, foi uma combinação perfeita, tudo se encaixou”, contou Diogo Nogueira.

    No entanto, além das músicas que são nacionalmente conhecidas, o show “Viva Cazuza Sempre” também apresentou uma novidade. Batizada de “Não Reclamo (Essas Canções de Amor)“, a letra foi musicada por Wilson Sideral a partir de um poema inédito e confidencial de Cazuza. Sobre essa experiência, o músico não escondeu a emoção que sentiu ao apropriar-se de uma obra de um de seus ídolos e dar ritmo àquela história. “Foi um misto de alegria, gratidão e responsabilidade para fazer algo a altura de um poeta tão importante para toda uma cultura e um povo. As poesias do Cazuza são lindas e, para mim, cada frase é um tiro no coração. E, por isso, eu acho que as pessoas se apropriam muito da arte dele como se fossem versos escritos para elas mesmas”, disse Sideral que explicou como foi o processo de musicar o poema. “Aquilo me tocou pela sinceridade das palavras e por botar o coração na ponta do lápis e da caneta. Então, para musicar, eu peguei o violão, fiquei lendo inúmeras vezes e resgatando todas as referências que eu tinha do Cazuza dos discos que eu sempre ouvi para conseguir expressar o que ele escreveu no poema em música”, lembrou.

    Quem também vai ter a missão de transformar em música um poema inédito de Cazuza é Baby do Brasil. A cantora faz parte de um seleto time escolhido por Lucinha Araújo, que ainda tem artistas como Caetano VelosoSeu JorgeNando Reis e muitos outros, que terá a honra e a responsabilidade de dar ritmo a esses textos de Cazuza que foram encontrados pela mãe em uma pasta que continha o aviso: “Não abrir nunca! Confidencial”. Apesar de reconhecer a honrosa e difícil missão, Baby do Brasil não encara o desafio como uma responsabilidade. “Eu vou me concentrar para entender o que ele estava sentindo naquele momento e buscar me expressar através da melodia o texto e as sensações que ele escreveu. A minha missão e preocupação, então, será fazer algo tão bonito quanto o poema”, disse Baby do Brasil.

    Porém, tudo isso só foi possível depois de um encontro entre Rogério Flausino e Lucinha Araújo em Nova York na casa de Paula Lavigne. Como lembrou o vocalista do Jota Quest, ele foi à terra do Tio Sam com a esposa comprar o enxoval de seu filho e, “pelas coincidências da vida”, encontrou Paula Lavigne na rua. No encontro na casa de uma das principais empresárias da música brasileira, Lucinha disse que queria fazer algo interessante para promover os 25 anos da Sociedade Viva Cazuza, completados em 2016, que cuida de crianças e adultos infectados com o vírus HIV. “Nessa reunião na casa da Paula, eu dei a ideia de nós pegarmos vários artistas para musicarem os poemas inéditos. Em 2001, a Lucinha lançou um livro, o Fantástico deu um mesmo poema para vários artistas transformarem em música e eu sugeri que nós fizéssemos mais isso”, contou.

    O resultado foi um show memorável que resgatou toda a obra e as ideias de um poeta atemporal. Afinal, as letras compostas por Cazuza nos anos 1980 são reflexos da sociedade brasileira de ontem, de hoje e de amanhã. Com diversas mensagens fortes e que são hinos de uma sociedade, os textos de Cazuza continuam embalando nosso cotidiano. Para Alcione, essa contemporaneidade do cantor e poeta é algo indiscutível. “O Cazuza, para mim, é de hoje e muito atual. Ele sempre viveu à frente do seu tempo porque quando ele cantou ‘Brasil, mostra a sua cara’, era um presságio ao que estamos vivendo hoje. E olha só, quantos aos depois, o nosso país está mostrando a cara”, disse Marrom que destacou o papel de Cazuza na formação ideológica das novas gerações. “Ele ensinou muitos pensamentos e questionamentos novos à juventude. O Cazuza, por isso, precisa sempre ser lembrado. Um artista como esse nunca pode ser esquecido”, completou.

    Quem também destacou as ideias de Cazuza como transformadoras na maneira de pensar dos jovens foi Rogério Flausino. Segundo ele, desde os anos 1980, o poeta e outros artistas da música nacional foram responsáveis por revolucionar as ideologias de um povo. Em relação aos tempos modernos, a situação não é diferente. “A gente está vivendo uma época nova e que nós precisamos desbravar. Eu gosto de pensar que a resposta para o futuro está no passado. Muito provavelmente, nós já passamos por situações que foram consequências de experiências anteriores. Esses caras que fizeram a nossa cultura nos anos 1980 cantaram a mudança de um jeito peculiar para a época. Hoje, nós vivemos um outro momento. Nós estamos passando por uma crise institucional quase tão grave como foi aquela pós-militarista. Será que não é a hora da gente pegar um microfone e uma caneta e sair rabiscando novas ideias?”, questionou Flausino.

    Assim como os músicos, a atriz Alinne Moraes analisou o porquê da obra de Cazuza ser tão viva e especial. Segundo ela, este é o reflexo e o símbolo de que a arte funcionou. Alinne, que está no ar em “Rock Story”, foi uma das artistas que fez parte da grande mobilização nas redes sociais para o show de ontem. Nos últimos dias, dezenas de personalidades de diferentes áreas compartilharam que apoiavam o show “Viva Cazuza Sempre”, que teve toda a renda revertida para a Sociedade Viva Cazuza. No entanto, apenas as atrizes Alinne Moraes e Lorena Comparato, a promoter Carol Sampaio, o ator Thiago Martins e a jornalista Carol Barcellos, de fato, marcaram presença na Arena Banco Original. “Não tinha como eu não vir. Nessa noite, eu tenho vários amigos no palco celebrando um grande artista em um evento que vai ajudar gente que precisa muito do nosso apoio”, explicou Alinne que justificou sua admiração por Cazuza. “Quem faz arte bem, o trabalho ultrapassa vários tempos e barreiras. Por isso ele é sempre atual e nós vamos continuar nos identificando eternamente”, concluiu.

    Por fim, mas não menos importante, a noite de ontem também foi embalada pela solidariedade e pela conscientização. No show “Viva Cazuza Sempre”, toda a renda obtida na bilheteria da Arena Banco Original e pelos ingressos solidários, que podiam ser comprados pela internet, eram mais baratos e não garantiam a entrada no show, foi revertida para a Sociedade Viva Cazuza. Há 25 anos, Lucinha Araújo mantém a instituição que cuida e ampara crianças e adultos infectados com o vírus do HIV. Honrada em poder ajudar essas pessoas com a sua arte, Baby do Brasil torce para que eventos beneficentes como esse se entendam a mais instituições. “Eu acho que a causa das crianças e adultos infectados pelo vírus do HIV é uma luta muito importante. Ver a Lucinha tocando com toda a sua garra esse projeto que atende e ajuda tanta gente é um incentivo para a gente se unir e ajudar como pode. Isso já é muito comum lá fora e eu torço muito para que seja frequente aqui no Brasil também”, disse Baby do Brasil.

    Já Teresa Cristina destacou a importância de falarmos sobre a AIDS sempre. Ao HT, a cantora lamentou que ainda hoje existam pessoas que se contaminem com o vírus por não se prevenirem. “A AIDS foi um susto que a humanidade teve. Logo que começaram as primeiras pessoas a serem infectadas, houve uma comoção e conscientização em todo o mundo para o uso da camisinha e contaminação do vírus. Mas, com o passar do tempo, eu percebi que os jovens deram uma relaxada. Infelizmente, eu conheço muitas pessoas que transam sem camisinha. Para mim, esse é um pensamento muito de Idade Média para uma sociedade que está no século XXI. Por isso, eu acredito que esse assunto não vá se esgotar nunca”, destacou Teresa Cristina.


    03/02/2017, 11:33 h

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