• BOA NOTÍCIA: PrEP começa a ser distribuída em São Paulo. 560 pessoas terão acesso nos primeiros três meses

    Na manhã desta quinta-feira (18), São Paulo deu o ponta pé inicial para a distribuição da PrEP (profilaxia pré-exposição ao HIV) nos serviços de saúde pública na cidade. A partir de agora, alguns CTAs (Centro de Testagem e Aconselhamento em DST/Aids) e SAEs (Serviços de Assistência Especializada em DST/Aids) vão ofertar gratuitamente o medicamento que, se tomado corretamente, pode prevenir a infecção pelo HIV. O Brasil é o primeiro país da América Latina a contar com essa alternativa de prevenção no sistema público de saúde.

    Indicada para pessoas que não vivem com HIV, mas que têm um risco acrescido de contrair a doença, como profissionais do sexo, mulheres transexuais, travestis, casais sorodiscordantes (quando um tem HIV e o outro não), homens gays e outros homens que fazem sexo com homens, o governo paulistano vai ofertar neste primeiro momento 560 profilaxias.

    De acordo com a psicóloga Maria Cristina Abbate, coordenadora do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo, a PrEP já está disponível no CTA Santo Amaro, na zona sul, nos serviços de Assistência Especializada Butantã, na zona oeste, no SAE Fidélis Ribeiro, na zona leste, e no de SAE Ceci, na zona sul. Em fevereiro, o medicamento vai chegar ao CTA Pirituba, na região norte.

    "Eu sou entusiasta da PrEP, estamos inaugurando a possibilidade de prevenir a infecção pelo HIV e romper, em um curto espaço de tempo, a cadeia de transmissão", comemorou a gestora. Cristina destacou ainda que os CTAs na cidade estão passando por uma repaginação para ofertar a PrEP. "Temos que oferecer a prevenção combinada da melhor forma, então, é justo que os CTAs façam parte desta estratégia, são serviços de saúde que nasceram com a missão de trabalhar prevenção. Eles são os agitadores da comunidade."

    Cristina, juntamente com as representantes dos governos Federal e Estadual, Adele Benzaken, diretora do Departamento de IST, Aids e Hepatites Virais, e Maria Clara Gianna, coordenadora-adjunta do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo,  a sociedade civil e profissionais de saúde participaram, nesta manhã, da solenidade de inauguração da PrEP, na nova sede do CTA Santo Amaro, na zona sul.

    Maria Clara Gianna afirmou que o estado de São Paulo recebeu 1.500 profilaxias do governo federal. "Além da cidade de São Paulo, outros municípios estão oferecendo a profilaxia, como São Bernardo do Campo e Campinas. Também temos PrEP na Casa da Aids, no Ambulatório de HIV/aids da Unifesp e no Centro de Referência e Treinamento (CRT) em DST/Aids."

    Ao todo, 21 munícipios de 10 estados e o Distrito Federal vão disponibilizar a PrEP. São cidades como Manaus, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, Recife, Curitiba, Rio de Janeiro e Porto Alegre.

    Segundo Adele Benzaken, até o final deste semestre pelo menos um serviço de saúde de cada capital vai oferecer a profilaxia. "Vamos ajustar a distribuição conforme a demanda local, mas é preciso esclarecer que conseguimos disponibilizar a PrEP no SUS em tempo recorde. Foram sete meses entre o anúncio da incorporação, a compra dos medicamentos - vale ressaltar que a empresa teve o trabalho de mudar a bula e o rótulo do remédio - a organização dos serviços e o consumidor final."

    Adele destacou ainda que já existe a sustentabilidade desta política. "Na semana passada, o congresso aprovou o aumento do orçamento do Departamento de Aids", disse.  De acordo com a gestora, o governo federal comprou 9 mil profilaxias. “Esperamos adquirir uma quantitativo maior nas próximas compras e esperamos que outras empresas concorram, assim, teremos um preço menor."

    Questionada sobre a resistência dos profissionais de saúde em ofertar a PrEP, Adele garantiu que será muito prazeroso oferecer medicamentos para prevenção.

    O supervisor Paulo Rodrigo Silva Gonçalves e o jovem André Fusari são usuários de PrEP há três anos. Paulo decidiu participar do estudo porque estava em uma relação sorodiscordante, já André confessou que tinha dificuldade de usar o preservativo. "A PrEP é importante para os momentos de vulnerabilidade, não senti efeitos colaterais. Mas quero destacar que só acessei a PrEP porque eu já tinha acesso a informações de usuários de outros países", disse Paulo.

    A realidade de André foi um pouco diferente. Ele sofreu muitos efeitos colaterais nos primeiros meses de PrEP. "Tive tontura, cólica estomacal, calafrio, mas resisti e não fiquei um dia sem tomar o remédio. Hoje, não sinto nada e continuo protegido do HIV", explicou.

    Os dois afirmaram que essa não é a 'pílula da salvação'. "Não contrai HIV, mas já tive sífilis três vezes, então é importante sim aderir às outras estratégias de prevenção", garantiu André.

    Sobre um possível abandono da camisinha, Adele ressaltou que o uso contínuo da PrEP não leva a uma tendência de diminuição do uso do preservativo e à incidência de outras doenças sexualmente transmissíveis. “O que alguns estudos controlados têm demonstrado é que a PrEP aumenta a adesão ao preservativo. Também é uma forma de aumentar a cobertura do diagnóstico do HIV, porque as pessoas são testadas.”

    Movimento social

    Representando o Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids), o ativista José Araújo Lima afirmou que, desde dezembro, consta no site do Ministério da Saúde que a PrEP está disponível em São Paulo. "Os medicamentos podem ter chegado no mês de dezembro, mas só consideramos a PrEP disponível no SUS a partir desta quinta-feira (18), quando os usuários terão acesso."

    O militante lembrou que o atraso da PrEP no SUS provocou desconforto entre os voluntários da pesquisa, pois eles quase ficaram sem a medicação. "Acabou o estudo e o medicamento não chegou a tempo, isso causou transtorno entre os usuários."

    Por fim, Araújo perguntou as gestoras se o atendimento dos novos usuários de PrEP seguirão o mesmo padrão das pessoas que já participaram dos protocolos de pesquisa.

    Adele rebateu dizendo que nenhum participante do PrEP Brasil ficou sem medicamento. "Remanejamos os remédios de outro estudo e conseguimos resolver o problema a tempo."

    Sobre a qualidade do atendimento, Cristina Abbate disse que na cidade todos os usuários de PrEP terão à disposição uma equipe multidisciplinar.

    Rodrigo Pinheiro, do Foaesp (Fórum de ONG/Aids de São Paulo), lamentou o fim da política de incentivo para as ações da sociedade civil e disse que será mais difícil garantir que a PrEP não seja elitizada. "O trabalho que as ONGs realizam na base faz a diferença na luta contra a aids. Sempre apoiamos a incorporação da PrEP no SUS, mas não vimos nenhum gestor se manifestar sobre o fim do financiamento das ações."

    As três representantes do governo concordaram que a PrEP deve chegar as pessoas que vivem nas periferias do Brasil e populações marginalizadas. "Temos uma rede que olha para a periferia, então, a PrEP também precisa chegar lá", argumentou Maria Clara.

    Da Agência Aids, a jornalista Roseli Tardelli, perguntou qual é a estratégia de comunicação que as três instâncias de governo vai usar para informar a população sobre a nova forma de prevenção. "Recentemente, estive em Nova York e vi informações sobre PrEP na rua, inclusive em pontos de ônibus e entrada do metrô."

    Seguindo na linha da comunicação, Araújo elogiou o Programa Estadual por emitir, no mês passado, uma nota reconhecendo que pessoas vivendo com HIV, com carga viral indetectável, não transmite HIV. Ele acredita que a gestão municipal e federal deveria seguir a mesma linha. "Todos temos que aderir a campanha Indetectável é igual a Intransmissível, essa informação faz diferença na vida de quem vive com aids."

    Maria Clara admitiu que a comunicação é falha e que nem sempre a imprensa dá o espaço necessário. Já a infectologista Adele Benzaken afirmou que o Departamento tem dito em vários espaços que indetectável é igual a intransmissível. Cristina Abbate, no entanto, falou que o material publicitário será lançado em breve e que toda contribuição é bem-vinda. "Queremos ouvir um pouco mais sobre a sua experiência em Nova York, quem sabe não conseguiremos replicar aqui", disse em resposta à Roseli.

    Hoje, a tecnologia é comercializada na rede privada dos Estados Unidos, da Bélgica, da Escócia, do Peru e do Canadá e está disponível na rede pública de saúde da França e da África do Sul. A PrEP é recomendada pela Organização Mundial da Saúde desde 2012.

    Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

    19/01/2018, 07:33 h

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